Empurra-me.

Dói quando nos empurram.


Dói quando nos empurram e caímos. E esfolamos o ego e as memórias, mais do que os joelhos.


Quando somos pequenos, caímos quando nos empurram, nas brincadeiras, no recreio. Quando crescemos, habitualmente caímos quando nos empurram "para fora", contra a nossa vontade.


 


Já aqui escrevi que estas férias fui muito que empurrada, contra a minha vontade, e com muita dor à mistura, "para fora" do meu cantinho de hábitos e conforto, para fora do meu padrão saudosista e nostálgico, "para fora" de muita coisa que acreditava verdadeira e alimentava.


Disse adeus a pessoas, a sítios, a objetos, a partes da minha vida, porque tal como ensina o Feng Shui - quando não dá, quando estragou, quando já não funciona? "Deixa para trás" ou ficarás preso e não avanças.


Menos dias do que mais, o sentimento reinante não é mágoa nem revolta, é pena, é dor à vista da ingratidão. É a sensação de que pus muito das minhas memórias, muito dos meus sorrisos e gargalhadas nas mãos de outros. E que esses outros, de repente, resolveram que o meu mundo interno já não interessa, já não cativa. E eu não tive muito tempo para o empacotar, para o guardar com cuidado e sair.


 


É esta falta de possibilidade de perceber o porquê do empurrão, a falta de possibilidade de um closer equilibrado que me magoa.


Mas os dias passam, as situações acontecem e eu apercebo-me: estou melhor assim. Dói-me a alma? Sim. Mas já não me pesa. Já não dou sem receber, já não vivo para ser invisível, já não sou suplantada. Já não vejo com os óculos do passado, sem conseguir ver que os locais e as vibrações do presente mudaram, e eu também.


Estranhamente, uma alma dorida pode sentir alívio.


E percebo, que ao fim de anos, (anos!), posso ser mais eu, se quiser, se me predispuser a isso. Sem me preocupar com o que os outros fazem, com o que os outros precisam, com os que os outros querem. Com o que "as massas" têm. E sem ter vergonha.


 


Agora as memórias são minhas, as frases chavão desaparecem, na espuma dos dias. E o meu cérebro cansado e cheio de mazelas guarda as que assim entende.


 


As gavetas, os cabides, os armários ficam (mais) livres. Tudo o que não encaixa "em mim", ou vai fora ou é guardado para oferecer a quem se reveja.


Há menos dramas, há menos obrigações, há menos peso nos ombros, há menos preocupações desmedidas com vidas, que não a minha.


De repente, há tempo para mim, para acordar, viver o dia, adormecer eu, "metida na minha vida". Vivo as minhas novidades: o ginásio, a alimentação, o ter cortado com o tabaco (e vão 4 semanas sem fumar), os planos de patuscadas lá em casa, o carro novo, a viagem em outubro... Vivo-as, sem esperar validação, sem por parte da minha alegria, do atingir as metas em quem e onde já não (se) interessa).



 


A alma e o coração estão esfolados, mas isso passa.

Comentários

  1. Robinson Kanes12/09/17, 13:32

    Bem, estás a começar a viver e isso é bom...


    Não há períodos de abundância e de felicidade sem algumas guerras para trás...

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  2. O que por vezes temos que fazer é meter para trás das coisas tudo aquilo que não nos deixa ir em frente . Tenho feito isso e tenho me sentido tão bem .
    Beijinho enorme

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  3. Revi-me nas tuas palavras, apesar de não sentir essa dor... Sinto sim a leveza, a leveza que esse desapego, esta coragem de largar me deixou... Sinto-me mais leve.

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  4. Passei por algo idêntico não há muito tempo, dependendo da relação que tinhas com as pessoas e o número de anos que conviveram irá demorar mais ou menos tempo até que superes a mágoa.
    Eu num caso em particular demorei bastante, mais do que desejava ou esperaria, mas agora sinto-me bem com a opção que tomei.
    Quem faz questão acaba por arranjar um motivo para voltar, quem não faz segue a sua vida e nós seguimos a nossa.
    O melhor de tudo? O espaço, quando libertamos espaço de umas pessoas ganhamos espaço para outras e isso é sem dúvida o melhor de tudo.

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  5. Enquanto for desapegar de coisas, consigo fazê-lo e adoro aquela onda do "minimalista"...
    Agora no que toca a sentimentos, ódios e afins... Quem me dera!
    Consigo identificar-me com algumas coisas.


    Beijocas

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  6. É isso mesmo. Seguir em frente e deixar para trás quem não interessa e nos magoa.
    Por vezes, dói, sim, mas sabemos que a vida nos dá alguns dissabores, precisamos é saber lidar com eles sem nos esquecermos de nós.

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  7. das coisas que aprendi com a vida é que nada é para sempre, nem a felicidade nem a dor dos joelhos esfolados ;) 

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  8. Também fiquei com imensa curiosidade de os testar :P

    Compreendo-te perfeitamente e parece que me reli nesse post. Muitas vezes há pequenas coisas que não deixam andar para a frente; que nos impedem de fazer o que realmente gostamos; ou que nos perturbam de tal forma que nos fazem ficar parados... quietos. Contudo, é precisamente nessa altura que devemos ter garra para ir... mesmo que com medo!

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