40 anos

(Este texto foi escrito antecipadamente)


 


Escrevo-vos sem saber onde estou.
Presente da quarta década da minha vida. E sobre os detalhes, falarei depois.


 


Hoje escrevo sobre como, a partir de hoje tenho a idade que a minha irmã terá para sempre.


Desde o dia em que ela se foi que penso neste dia.


No tudo que daria para ela aqui estar, para ainda ser saudável e me fazer um bolo único, como só ela.


Que não estaria a viajar pelo mundo, estaria em casa, com ela, o meu H., os meus pais porque as datas grandes celebram-se juntos, em casa.


Talvez, por isso, tenha feito este pedido, para não estar em casa.


Foi a penúltima vez que vi a minha irmã: em casa, a celebrar os seus 40 anos.


Foi um dia feliz, ela teve energia e humor como não tinha faz muito. E eu não quero manchar essa memória.


(Casa, agora, é para celebrar os aniversários dos meus pais e do H.)


 


A minha casa de todos os dias agora é o m-R.


E onde estivermos.


 


Mas, não deixo de pensar: "para quê cheguei aqui?".


Porque sobrevivi ao parto inesperado?


Para ser boa aluna?


Para ler muitos livros?


Para falar bem inglês?


Para ser a primeira da família a tirar cursos superiores?


Para ter o meu avô, mas perdê-lo antes de ele ver a minha vida ir longe?


Para ter o H.?


Para me mudar para Lisboa?


Para lutar para trabalhar, feita louca? Num padrão constante que cansa e mói?


Para tirar o Mestrado e sonhar com um Doutoramento, "porque sim"?


Para conhecer o m-R?


Para casar, sem esperar, e ter um dia belo?


Para, ao dia de hoje, já ter tido 3 depressões nervosas; um esgotamento e um sem fim de medicação que ajuda, mas não resolve (só vai salvando)?


Para, por motivos de saúde, o meu marido andar a ajudar-me a reunir documentação de toda a minha vida, e ler o meu historial, que para muitos será um rol de "luta da guerreira", mas me faz sentir nua e frágil.


 


Tanto e tão pouco, e em tantos dias, o sentimento de nada e de vida passada.


 


Parabéns , mais do que a mim, à minha rede.


Às minhas memórias.


Aos meus amores.


Esses são os que dão valor a esta data.


 


Aos 40 anos que, agora, partilho, para sempre com a minha irmã.


E depois deste dia, sem querer, passarei a ser a filha única e mais velha.


(Eu que nasci para ser a pequenina da família)


 

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