Do bullying
Parece que, por entre Eusébio (long live the King!) e Ronaldo, o país lá reparou noutra noticia-zinha (obrigado a todos os blogues que não deixaram o caso passar em branco).
O "aluno de 15 anos" (tão bonito ver os Media despersonalizarem a vítima...) que se suicidou - alegadamente, diz a polícia e os meus "colegas" jornalistas - em consequência de bullying na escola.
Alegadamente (aaai como "jornalista", adoooooooro escrever esta palavrinha, voltem aulas de TJ, voltem!) a escola diz que nada fora do normal se passou. Claro! Se há coisa que eu fazia na escola era despir os meus colegas à 6ª feira à tarde. E eles a mim. E os empregados aos professores. Era o warm-up para o fim-de-semana. Uh-uh! A loucura!
Meus amigos o bullying existe. Ponto. EU sei do verbo SABER o que é bullying. Não só de colegas mauzinhos, mas também da parte dos Professores. As crianças são crueis, os adoelescentes são "veneno com pernas" e há adultos a quem não devia ser permitido tentar educar mentes de crianças - seres humanos in the making.
Sofri bullying do pior imaginário. Psicológico, físico. Do humilhante, do em que até os meus pais foram "gozados" por me terem feito, por terem "ficado comigo" e por escolherem educar-me como "às crianças normais". Não me perguntei, que ainda hoje não sei, como fui mais forte do que o Nelson. Não me calei. Lutei pela justiça que sabia que merecia. Não me safei de mais humilhações, de mais violência, de professores a rirem-se de mim, de coleguinhas a safarem-se por serem filhos de Senhores Doutores e a Escola considerar que nada de anormal se passava.
E sim, estas atitudes mantiveram-se até na Faculdade, até com "crianças" muito mais velhas do que 18 anos. Com Professores alegadamente mais inteligentes do que os que ensinam numa Escola Básica. Na Universidade portuguesa melhor posicionada no ranking mundial.
Estão a ver o padrão?
Eu estou. Eu conheço-o. Desde que me conheço e ainda hoje no mercado de trabalho.
Os pais tentam ajudar, mas nós vítimas, se queremos mesmo esconder, conseguimos. Por muito que os nossos pais nos estendam a mão, entre nós há um veu que enevoa tudo.
Se somos "diferentes" para a sociedade: seja por sermos altos, baixos, magros, gordos, com ar de nerds, pobres, deficientes, gagos... se somos diferentes a sociedade não vai cansar-se de o "gritar". De nos tentar por de parte. A ver se partimos, se quebramos.
Eu "perdi" partes da minha vida para o bullying, eu tive que chorar, que lutar, que me revoltar muito. Ainda tenho. Estou cá porque acredito num amanhã melhor. Embora já tenha estado nas grades de um viaduto a olhar cá para baixo, a pensar se me atirava ou não.
Durante uma semana vão dizer que vão estudar o caso, que vão procurar conhecer a raíz do problema, para que não se repitam estes casos. Que há x estatísticas. Que a sociedade pensa xpto. Daqui a duas semanas... só a família e quem conhece a sua dor continuará a pensar e a perguntar-se como terão forças para continuar.
Infelizmente o Nelson, o Leandro antes dele e tantos outros não conseguiram sentir forças para continuar.
Gostei de ler.
ResponderEliminarXoxo
Cindy
Pena não ser um tema "bom"...
ResponderEliminarObrigada :)
Beijinho,
Não é um tema "bom" de facto, assim como todas as notícias infelizes, mas pelo menos é um começo, um alerta, uma forma de combater. Se mais notícias destas houvessem, talvez estas "vítimas" não caíssem no esquecimento ou no mínimo, esta modalidade de massacre, teria a credibilidade que exige.
ResponderEliminarBeijinhos
Quero acreditar que sim.
ResponderEliminarQue a cada dia mau para um menino (ou um adulto) se levanta mais uma voz que os compreenda.
"No meu tempo" nem nome havia para este tipo de tortura, era gozar, mal-tratar.
Anos passam e já há uma palavrinha "bonita" em inglês.
Passo a passo... um dia... a luta dará frutos. Ganhos e menos perdas.
Beijinho,
Mereces uma grande salva de palmas por este texto. E eu gostava que tantas outras pessoas dessem a importância merecida a este assunto, porque é um dia-a-dia na nossa sociedade, embora seja escondido pelas vítimas por vergonha ou medo ou qualquer outra razão.
ResponderEliminarEu própria sofri de bullying, de várias formas de bullying e ainda hoje, com 21 anos, isso me afecta e mexe comigo e marcou-me de formas irreversíveis.
As pessoas são cruéis (ou demasiado ignorantes) e não têm a noção do quanto uma palavra pode marcar a vida de uma pessoa e moldá-la e depois seguem a sua vida quando, infelizmente, tiveram um impacto desse tamanho na vida de outrem.
Eu pergunto-me porquê que teve que ser o Nélson ou o Leandro (e outros antes deles) a não conseguir viver com o que aconteceu e não os bullies?
Não é só na economia que este país precisa de andar para a frente, enquanto as autoridades (na escola, polícia, educação, governo, seja onde for) virarem a cara para este tipo de situações quando é conveniente ou quando não é "interessante" ou "importante" então vão continuar a existir Nélsons e Leandros e Cátias e m-M's.
É tão triste que isto aconteça em pleno século XXI, onde há consciência e justiça e atenção para tanta coisa, mas ignorância para outras e onde também há jovens e adultos tão vazios de cabeça, que ofender e humilhar terceiros possa sequer fazer sentido, quanto mais posto em acção.
É triste, mesmo muito triste e acima de tudo revoltante.
PS.: Também tinha muitas saudades tuas, andaste desaparecida. Mas fico à espera de textos mais animadores. Muitos beijinhos.
PS2.: Fica combinado a realização dos itens apontados por vossa excelência, é combinar. :)
A minha filha teve alguns problemas na escola, mas estava atenta à carita dela quando chegava da escola e felizmente sempre foi uma miúda que conversava muito e contava o que se passava. Fui à escola e falei com a directora de turma e disse-lhe que se a coisa não mudasse eu iria falar directamente com as 3 miúdas que lhe faziam a vida negra.
ResponderEliminarFelizmente a professora tomou medidas e falou abertamente à frente da turma sobre o problema que a ritinha estava a viver. Remédio santo.
Infelizmente nem sempre acaba bem. Umas vezes porque os familiares não estão atentos e penso que o pior é quando as crianças não falam.
Boa semana
Pois... Os únicos que conseguem sentir e compreender essa dor são os que passaram por semelhante ou aqueles - poucos, gatos-pigandos abençoados pelo Mundo - que se levantam e defendem aqueles que choram por dentro e gritam no silêncio. E as gerações seguintes, ao contrário do que nós ansiávamos, não estão a ajudar nas melhoras desta sociedade mesquinha que julga os demais por uma imagem de "perfeição" que nunca existirá. Continuam sem saber amar os outros pelas suas qualidades únicas, pelo seu interior.
ResponderEliminarContinuo aqui, atenta ao máximo, pronta a jogar a mão a quem não consiga falar. Porque um dia precisei... E graças a Deus que alguém me ouviu. E o que se pode pedir a quem está a ler isto e a ver o caso do Nelson é isso. Oiçam. Conversem, convivam, amem o próximo. Se verem alguém infeliz não virem a cara para o lado. Se à vossa frente está alguém a ser gozado, chacoteado ou insultado, levantem-se. Continuo com esperança de que um dia, consigamos dar a volta a isto...
Beijinhos.
Eu também...
ResponderEliminarSe bem que sempre fui eu que me levantei, que lutei por mim e pelos outros...
Um dia, um dia conseguiremos que as pessoas não tenham medo de se esconder, ou de ajudar.
Beijinho,
No meu caso tenho uma mãe leoa e um pai muito protetor que sempre fizeram o melhor.
ResponderEliminarA verdade é que eu mesma sempre escondi muito o meu sofrimento e escolhi lutar sozinha, para não os incomodar mais com a crueldade do que me diziam e os afectava/incluia a eles.
E também tive o azar de, nem sempre, ter bons professores...
Beijinho,
O teu penúltimo parágrafo diz tudo! :) (infelizmente, mas é bom ver que me compreendem e tu tiraste-me as palavras!)
ResponderEliminarP.S1 - I'm baaaack!
P.S2: You name the dates! :D
Durante 5 anos sofri de bullying, de todo o tipo - físico, verbal, psicológico. Durante esses anos tentei explicar aos meus pais o que se passava, pedir ajuda, pedir para mudar de sala, de escola, os porfessores protegiam os meninos "queridos" que me faziam isso porque eram os filhinhos dos "srs. doutores" e os "filhinhos dos próprios professores" que o faziam... nada fizeram, a minha mãe dizia que o defeito devia ser meu, o meu pai não entendia o quanto me afectava, nem o porquê.
ResponderEliminarTentei suicidar-me por 3 vezes, desenvolvi anorexia e bulimia. No 10º ano tudo melhorou, mudei de turma, mudei de escola... enfim... mudei de meio.
Mas ainda hoje noto em mim o que isso me fez, eu era extrovertida, era extremamente comunicativa e fazia amizades com imensa facilidade - agora sou tímida (não tanto como eles me fizeram ser, melhorei), sofro de ansiedade quando sei que vou conhecer pessoas novas, morro de medo de enfrentar situações sociais sozinha sem ninguém amigo que me apoie e esteja presente no momento (entrar na uni foi aterrorizante, escolher um mestrado que mais ninguém que eu conheço escolheu foi atemorizante)
A cada conquista pequena, a cada passo que dou sem ser julgada, sem ser criticada e atacada recupero alguma confiança em mim e alguma esperança nos outros mas é muito breve.
Actualmente foi mãe, o meu mundo desabou quando uma criança da turma dele, do PRE-ESCOLAR me veio dizer que o meu filho levava porrada de uma miuda TODOS OS DIAS e tinha imenso medo dela!!
Eu não notei (e acredita que ando sempre em cima disto), ninguém notou, ela batia-lhe na cantina, na hora de almoço quando estavam a almoçar.
Caiu-me o mundo aos pés! Eu senti-me a pior mãe do mundo, senti que era como a minha mãe que nunca fez nada para me proteger. Falei com o meu filho, ele não queria dizer-me, tinha vergonha (caramba um miudo de 3 anos, TRÊS!! que sempre me relatava o dia na escolinha nunca, NUNCA, me disse que alguém lhe batia - e ele nunca foi habituado a ver pessoas a baterem umas nas outras). Depois percebi que ele não percebia que o que ela lhe fazia era errado e acho que ele piorou quando percebeu que aquilo não era a forma natural como as crianças deviam relacionar-se.
Depois de se ter apercebido que aquilo não era normal o meu filho não queria ir para a escola e, pior, começou a fugir sempre que via uma criança. Com os adultos dava-se muito bem, relacionava-se lindamente. Das crianças fugia!
Eu percebi porque aquela criança era assim para o meu filho - mãe a ter filhos de "15 em 15 dias", com mais 6 irmãos, familia desestruturada... mas quem levou isso por tabela foi o meu filho.
O meu filho mudou de turma (não para fugir do problema mas para lhe ajudar a conseguir lidar melhor com uma nova turma, com crianças novas, que não lhe lembrem coisas más mas), está a ser acompanhado por uma psicóloga que o tem ajudado imenso - já fez amigos, já não se inibe na escola, a educadora também está atenta ao que se passa e estabeleceu regras de socialização e ensina-lhes como resolver conflitos.
Ou seja, eu falei aos meus pais o que se passava, eles desvalorizaram; eu, enquanto mãe ciente destas coisas, atenta (o meu filho nunca teve marcas, não dava indicios) - eu só soube porque uma menina de 4 ANOS, teve a VALENTIA E CORAGEM de, à frente da miuda que batia no meu filho, me vir dizer a mim: "A "x" bate no "y" e ele tem muito medo dela". Se não fosse isto, se o meu filho mantivesse sempre a mesma forma de ser, se as educadores e auxiliares tivessem mantido a mesma postura de não-ver ou não-querer-ver ainda hoje o meu filho poderia estar a sofrer nas mãos dela, em silêncio. Apesar de todos os dias eu lhe perguntar como foi o seu dia, se se divertiu, com quem brincou e ao que brincaram... apesar de lhe perguntar se almoçou, se gostou,... apesar de lhe fazer estas perguntas diariamente, sempre na expectativa de ouvir algo que achasse perturbador ou não-normativo.
Desculpa o imenso texto mas acho que se sub-valorizam imenso estes temas.
Ps: Sim, a miúda
Olá :)
ResponderEliminarAgradeço muito o comentário, a partilha!
Serão mães como tu e (um dia...) como eu que conseguirão trabalhar estas falhas da sociedade com os seus filhos.
Não te culpes!!!
Como tu própria dizes, estás atenta, cuidas e fazes o teu melhor.
A idade é que é tenra e o "fenómeno" ainda não lhes é perceptível...
Um beijinho muito grande para a coleguinha que ajudou - esperemos que cada vez mais meninos e meninas sejam assim para com os seus colegas :)
Bem-vinda e volta sempre.
Beijinho,
Na minha altura não haviam destes nomes... Mas isto sempre aconteceu.
ResponderEliminarJulgo que o bullyng verbal ao qual fui exposto durante anos em nada me afectou! Gozavam é verdade, chamavam-me gordo (era a verdade) mas nada disso me afectou directamente, nunca me deixei ir abaixo!
Provavelmente isso alimentou o meu estado de obesidade, mas com aquela idade eu não tinha essa noção.
As crianças podem ser muito más.... E este caso chocou-me!
As crianças podem mesmo ser cruéis...
ResponderEliminarE este caso provou-o... :(